5. COMPORTAMENTO 21.8.13

1. 50 ANOS DE BELDADES
2. A VIDA DOS PADRES EXCOMUNGADOS
3. INVESTINDO EM AVENTURA
4. HISTRIA MAL CONTADA

1. 50 ANOS DE BELDADES
Como o Calendrio Pirelli consegue manter-se um objeto de desejo h meio sculo tanto por modelos e fotgrafos quanto por consumidores
Tamara Menezes

Quem precisa de um calendrio no mundo contemporneo, quando os celulares e quase todos os relgios dizem em que dia, ms e ano estamos? Ningum. Ento, por que o Calendrio Pirelli, que divulga a marca italiana de pneus automotivos, comemora 50 anos mais disputado do que nunca? Provavelmente porque o que menos importa neste produto  justamente o calendrio. A marca investiu em um marketing que aproxima o pneu da arte e da seduo: locaes paradi-sacas, mulheres deslumbrantes, fotgrafos que so grifes, acabamento de livro luxuoso e tiragem mundial de apenas 20 mil exemplares, para alimentar a aura de exclusividade do brinde. A top brasileira Isabelli Fontana  que j posou oito vezes para a disputada folhinha e est na verso comemorativa de meio sculo a ser lanada no ms que vem, em Milo, na Itlia  considera esse trabalho uma espcie de prmio. Voc instantaneamente vira um nome muito importante. Fazer parte desse projeto  como um trofu na vida de qualquer modelo, disse  ISTO.

VETERANAS - Todas j posaram para o calendrio. Da esq. para a dir.: Alessandra Ambrosio, Helena Christensen, Karolina Kurkova, Alek Wek, Miranda Kerr e Isabelli Fontana

Para atrair o espectador, a Pirelli aposta na frmula de associar conceitos de universos que no so naturalmente ligados aos da companhia.  uma estratgia que funciona a longo prazo, explica o professor Marcelo Boschi, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Detalhe: nenhum pneu aparece nas fotografias nas edies lanadas ao longo de 50 anos  em 1967 e entre 1975 e 1983, devido  crise do petrleo, a publicao foi suspensa. Na opinio do publicitrio Lula Vieira, um valor do famoso calendrio  manter o lastro de tempo em um mundo de coisas rpidas e celebridades que desaparecem. Por isso o investimento em uma edio de luxo, um objeto do desejo destinado apenas a alguns privilegiados.

BASTIDORES - Isabelli no making of da sesso de fotos numa praia a uma hora de Nova York, onde foi clicada por Peter Lindbergh

A verso 2014 foi concebida em junho, nos Estados Unidos, por dois conceituados fotgrafos de moda. O alemo Peter Lindbergh clicou as modelos numa praia distante uma hora de Nova York e o francs Patrick Demarchelier num estdio em Manhattan. Na semana passada, as fotos do making of foram divulgadas. Lindbergh disse ao jornal britnico The Sunday Times que 25 pessoas j pediram para ele fazer um calendrio como o da Pirelli, mas com chocolate ou mquinas na foto. Ele respondeu: Caiam fora e peam a outra pessoa. Para comemorar o cinquentenrio da publicao, a Pirelli recorreu a veteranas do calendrio. Beldades como a dinamarquesa Helena Christensen, a thceca Karolina Kurkova, a australiana Miranda Kerr, a sudanesa Alek Wek, alm das brasileiras Isabelli Fontana e Alessandra Ambrosio, compem o time encarregado de associar o pneu  sensualidade,  riqueza e  inovao nesta edio.


2. A VIDA DOS PADRES EXCOMUNGADOS
Sacerdotes expulsos da Igreja Catlica sofrem preconceito, mas no abrem mo da f, e muitos abraam outras religies
Joo Loes e Tamara Menezes

EXCLUDOS - Acusado de trfico, padre Roosevelt foi inocentado pela Justia, mas sua excomunho foi mantida. 

Houve um tempo em que excomunho era sinnimo de morte. Na Idade Mdia, por exemplo, excomungados eram banidos do convvio social e at executados. Hoje, falar em expulses da Igreja Catlica pode soar anacrnico, mas elas ainda acontecem  embora a amplitude de seu impacto na vida dos expurgados pela Santa Madre tenha se reduzido. H, no entanto, um grupo que ainda sofre uma excluso praticamente nos moldes medievais: os padres catlicos. Sem poder celebrar, proibidos de comungar e participar da vida da Igreja, a maioria dos sacerdotes vive um verdadeiro banimento social. E, quando h escndalo no processo de excluso, a situao se agrava ainda mais.

Foi assim com o padre Roosevelt de S Medeiros, 68 anos, excomungado em 2003 por suposto envolvimento com o narcotrfico na cidade de Bonito, em Mato Grosso do Sul. Em fevereiro de 2002, um rapaz portando cocana e maconha foi preso pela polcia dentro do quarto do religioso, que foi indiciado por associao com o trfico e passou 15 dias preso. No tardou, diante de tamanho escndalo, para o ento bispo da diocese de Jardim, dom Bruno Pedron, pedir  Roma a excomunho do padre. Dei minha vida  Igreja e, no fim, tomei um chute, afirma Medeiros. Embora magoado com o que aconteceu, padre Roosevelt no se deixou amargurar. Inocentado em 2003 da acusao de trfico pela Justia, ele se mudou para Campo Grande, entrou para a Igreja Catlica Apostlica Brasileira (Icab), foi eleito bispo e hoje tem rotina de religioso. Se tivesse vindo para a Icab mais moo, tambm me casaria, mas acabei ficando sozinho, diz.

Excomungado em 9 de abril de 2013, aos 47 anos, padre Roberto Francisco Daniel, conhecido como padre Beto, da diocese de Bauru, interior de So Paulo, no pensa em refazer a vida fora da Igreja. Ele luta, na Justia, para reverter a sano eclesistica a que foi submetido. Segundo Beto, o tribunal o julgou em processo relmpago e no lhe deu a chance de justificar o discurso progressista que vinha adotando em homilias, quando defendia o casamento gay, o uso de mtodos anticoncepcionais e o sexo antes do casamento. Meu lugar  na Igreja, quero continuar padre, diz o religioso, que acaba de lanar Verdades Proibidas (Ed. Alto Astral). Enquanto no volta ao altar, ele d aulas em trs universidades, tem programa de rdio,  cronista de um jornal da cidade e vive sendo visto bebendo chope em bares da regio. Muito do que eu dizia e chocava agora  dito pelo papa Francisco, afirma.

No h estatsticas de quantos padres excomungados existem atualmente, pois o processo pode correr nas dioceses sem chegar ao Vaticano ou s conferncias episcopais. O processo de Nildemar Andrade Santos, 52 anos, tramitou na diocese de Ilhus, na Bahia. Sacerdote durante 28 anos, ele foi expulso em fevereiro de 2012 porque havia se vinculado  igreja anglicana. O caso, embora barulhento, logo arrefeceu, pois no houve insistncia por parte de Santos de continuar no catolicismo. Mas qualquer excomungado pode voltar atrs, diz Edson Luiz Sampel, doutor em direito cannico e professor da Escola Dominicana de Teologia. Embora a excomunho seja decretada sempre por tempo indeterminado, a ideia  que, to logo o excomungado se arrependa, volte para a igreja.


3. INVESTINDO EM AVENTURA
Para participar do Ecomotion/Pro, a maior corrida de aventura da Amrica, atletas apostam em equipamentos de alto nvel a fim de superar os mais de 600 km de prova 

Trekking, canoagem, mountain bike e tcnicas verticais, tendo como cenrio a Costa do Cacau, na regio sul da Bahia. Trinta e duas equipes de dez pases, alm do Brasil, e 128 atletas esto envolvidos na mais importante corrida de aventura da Amrica, a Ecomotion/Pro, que comeou sua dcima edio no domingo 11, na Praia da Coroinha, na Orla de Itacar. Mas explorar essas rotas preservadas num ritmo alucinante, e por meio de diversas modalidades esportivas, exige, alm de intenso preparo fsico e organizao para superar os 620 quilmetros, um alto investimento financeiro dos integrantes das equipes. Os custos iniciais, dizem os participantes, podem variar entre R$ 3,5 mil, no caso do atleta amador, e R$ 10 mil, pois  preciso investir em equipamento para os diferentes esportes praticados. Gasta-se muito porque os equipamentos so caros e diversos, diz Naru de Moraes, da equipe Brou Aventuras/Makara/Kailash/Red Bull, na prova pela quarta vez.

SUOR - Mountain bike (acima), trekking (abaixo) e canoagem (ltima): quartetos exploram a paisagem da Costa do Cacau, no sul da Bahia, em diferentes modalidades, superando seus prprios limites

A organizao empresta caiaque e remo em algumas provas, mas no disponibiliza a bicicleta.  importante, para esse tipo de corrida, que ela tenha 27 marchas e suspenso dianteira  detalhes que no saem por menos de R$ 2 mil, mas que podem chegar at R$ 30 mil. Os tnis, para o trekking, so um investimento mais baixo: em torno de R$ 300. E o remo gira em torno de R$ 1 mil. Alm de todos os equipamentos, h outros instrumentos to necessrios quanto, como mochilas e roupas impermeveis, para as trilhas de mar e rio, que no saem por menos de R$ 1,5 mil. Sem falar nos itens de segurana, que, no caso das provas de alto nvel, formam uma lista extensa. So luzes, colete salva-vidas, kit de primeiros socorros e cobertores trmicos, entre outros. Alm da taxa de inscrio, que foi de US$ 3,2 mil a US$ 4,2 mil.

O regulamento do Ecomotion/Pro permite que os participantes levem dinheiro e comprem comida ou o que precisarem durante o percurso, que, algumas vezes, passa por uma vila ou cidade. Mas os atletas, que tm a obrigao de dormir ao menos oito horas, costumam carregar na mochila itens de higiene pessoal, j que no se toma banho da largada  chegada  perodo esse que pode durar at seis dias. Produtos como lenos umedecidos, desodorante e escovas de dentes tentam suprir o desconforto da falta de limpeza. Vale lembrar que cada quarteto, formado por esportistas com idade entre 21 e 49 anos, tem de ter pelo menos uma mulher. Elas so nosso equipamento obrigatrio, dizem os participantes masculinos. Os times tm que definir seus caminhos com a orientao de mapas e bssolas e passar por 45 pontos de checagem em uma ordem pr-definida at a chegada. Por alguns momentos, d para parar e olhar a paisagem, diz Trevor Voyce, atleta da Segate, atual campe mundial e lder do ranking. Gostei de ver as rvores de cacau e passamos em lugares que exalavam aroma de chocolate quente, afirma o atleta, deixando claro que, mais do que cara, extenuante ou desafiadora, uma prova de aventura como o Ecomotion/Pro pode ser muito prazerosa.  


4. HISTRIA MAL CONTADA
A polcia insiste na tese de que garoto de 13 anos matou a famlia e se suicidou, mas at agora investigaes trazem mais dvidas do que respostas
Natlia Mestre

A chacina da Vila Brasilndia, na qual morreram cinco integrantes de uma famlia de PMs, continua com mais interrogaes do que respostas. A polcia civil de So Paulo segue sustentando que o garoto Marcelo Bovo Pesseghini, 13 anos,  o nico suspeito dos crimes. As investigaes apontam que o adolescente havia formado no colgio um grupo de assassinos para o qual teria falado da inteno de matar os pais, mas muitos pontos ainda no esto esclarecidos e a informao de que a cabo Andria Regina Bovo Pesseghini, 36 anos, teria delatado colegas envolvidos no roubo de caixas eletrnicos abre o leque de possibilidades que colocam em dvida o que vem sendo sustentado pelo delegado responsvel pelo caso. A prpria chefe do Departamento de Homicdios e Proteo  Pessoa (DHPP), delegada Elisabete Sato, disse na semana passada que h a possibilidade de crime passional ou vingana. Ainda na cena do crime, vrios PMs que trabalhavam com Andria vieram me dizer que poderia se tratar de uma treta de polcia, ou seja, jargo policial que significa vingana de policial corrupto contra o honesto, disse o deputado estadual Major Olmpio Gomes (PDT)  ISTO. Um dos comandantes ainda chegou a me dizer que era bem possvel que o autor dos crimes estivesse l, entre ns, fingindo uma cara triste.

PLANO - Segundo a polcia, Marcelo Pesseghini, 13 anos (na foto com os pais), havia formado no colgio um "grupo de assassinos" para o qual teria falado da inteno de matar os familiares

O comandante do 18 Batalho da Polcia Militar, tenente-coronel Wagner Dimas, chefe de Andria, foi o primeiro a levantar essa suspeita, em entrevista  Rdio Bandeirantes horas aps o crime. No dia seguinte, para a Corregedoria da PM e para o DHPP, ele voltou atrs e disse ter se confundido. Em nota, o comando da Polcia Militar do Estado de So Paulo informou, na quarta-feira 14, que o tenente-coronel foi afastado para tratamento de sade no programa de apoio psicolgico da corporao. Esto querendo destruir a carreira dele, cham-lo de louco, mas eu confirmo que essa denncia  verdadeira, afirma o Major Olmpio. O Major disse ainda que, depois da declarao de Dimas, ele mesmo reiterou a denncia  Corregedoria e acrescentou que Andria teria sido convidada para fazer parte do esquema no segundo semestre de 2011 e se negado. Ela teria comunicado o fato ao tenente-coronel Fabio Paganotto, seu superior na poca, que foi transferido de Batalho no dia 15 de dezembro, aps averiguar as denncias e sofrer ameaas. Policiais de vrias patentes me confirmaram que existia um calhamao de provas contra todos os envolvidos. Quero saber onde foi parar esse registro oficial que a Corregedoria diz agora que nunca existiu, afirma.

DENNCIA - O deputado estadual Major Olmpio foi um dos primeiros a chegar  no local do crime, onde vrios PMs disseram a ele acreditar em vingana de policiais corruptos. A cabo Andria havia denunciado colegas

A cena do crime  outro ponto controverso. A delegada Elisabete Sato afirmou na semana passada que o local no estava idneo, ou seja, preservado para a percia, no momento em que a polcia civil foi atender a ocorrncia. Trata-se de uma constatao importante, pois seria impossvel algum dar um tiro na prpria cabea, alterar o cenrio do crime e depois morrer. Estima-se que cerca de 200 policiais rondavam a rua e 30 chegaram a entrar na casa. A posio do brao de Marcelo, que teria cometido suicdio, segundo a polcia, causa estranheza. As fotos mostram o corpo do menino sobre o colcho da sala, com o brao esquerdo dobrado na lateral e para baixo e a mo que segurava a arma no estava tesa e fechada. Peritos ouvidos por ISTO afirmam que, por fora do impacto da pistola .40, o menino deveria estar com o brao esticado e a mo fechada. Isso pode ser um indicativo de que o adolescente teria, na verdade, sido assassinado e a arma colocada em sua mo.

 estranha tambm a conduta dos companheiros de batalho do sargento da Rota Lus Marcelo Pesseghini, 40 anos, pai de Marcelo. Ele estava escalado, na manh da segunda-feira 5, para participar de uma operao contra a faco criminosa PCC em Presidente Wenceslau. O sargento deveria se apresentar ao batalho s 5h para seguir em comboio s 8h e no compareceu. No entendo como a polcia no foi averiguar o ocorrido. Se tivesse feito isso, o menino poderia estar vivo, afirma o Major Olmpio, para quem essa falha foi determinante para ampliar a tragdia e semear a confuso nas investigaes. Politicamente e estrategicamente, para o governo do Estado e a Secretaria de Segurana Pblica,  conveniente que o menino seja mesmo o autor dessa chacina. Se for confirmada vingana policial, seria a demonstrao pblica de uma falta de controle da PM por parte do Estado, afirma ele.

Tambm  difcil entender como, em uma cidade to monitorada como So Paulo, no apareceram imagens de Marcelo dirigindo o carro da me at a escola, sozinho ou acompanhado. Ou mesmo por que o par de luvas que a polcia diz ter encontrado no banco de trs do carro s apareceu dois dias depois de o veculo ter sido apreendido para ser periciado. Enquanto isso, pichaes dizendo que Marcelinho  inocente e pedindo que a verdade venha  tona esto presentes tanto na casa da famlia quanto no colgio particular na Freguesia do , onde o adolescente estudava.  

